O ano era 1964, um golpe militar estava a caminho e meu pai, Paulo Neto Alkmim, homem que gostava de mato e da vida rural, compra a cota de um Clube chamado Pampulha Iate Clube, à beira da lagoa da Pampulha, região símbolo da modernidade da cidade. O Clube tinha 3 anos e, eu, 6 anos de idade. Meu pai morre 4 anos depois, em 1968, um ano importante no qual a utopia pela liberdade e pela paz circulou nos corações e mentes dos jovens por todo mundo. Eu, com então 10 anos de idade, sofria minha primeira perda.
Morava no bairro Barroca, estudava no Colégio Santo Agostinho, jogava futebol todos os dias e já gostava de frequentar o PIC aos finais de semana. Era uma turma de meninos e meninas espremidos em um fusquinha vermelho comandados por meu Tio Carmelo que todo sábado e domingo saia de casa em casa pegando os sobrinhos e sobrinhas para ir ao PIC. Depois de brincar, jogar bola e nadar, a meninada ficava esperando o Tio Carmelo acabar sua “pelada” e subir para a piscina grande. A maioria, inclusive eu, aprendeu a nadar na piscina do PIC. Foi o Ricardo quem me ensinou. Não me esqueço da piscina de água quente, que às vezes era ligada, uma sensação. Foram anos inocentes que vivi com alegria compartilhando com o PIC minha infância e adolescência.
Nos anos 70, jovem adolescente lutava judô e jogava futebol. Fui campeão de judô, mas por motivos que não sei explicar parei de lutar. Mas, em meados dos 70, comecei a jogar futebol de salão com os adultos. O PIC tinha duas quadras em frente ao restaurante e ao boliche. Tinha a “pelada” aos sábados, que começava às 13h30 e ia até mais ou menos 18h; e aos domingos, que começava mais ou menos as 8h. Para mim foi um momento mágico.
Participar do futebol do PIC era um desejo de criança, mas era muito difícil um jovem entrar e conseguir jogar. O jogo era
duro, o “pau quebrava”, mas o mais complicado é que tinha muitos craques. Como era difícil jogar, comecei no gol e quando alguém
“pregava” ia para o ataque. Logo gostaram de mim e me acolheram. Sei que vou me esquecer de muitos, mas não tenho como não citar
algumas pessoas que marcaram esse momento. Então vamos lá. Zé Pedercine e seu irmão Túlio, um, pivô com faro do gol que virava
em cima dos beques e marcava gol de todo jeito; o outro, um “becão” duro, marcador implacável. Mais tarde, quando resolvi jogar
de pivô, o Zé sempre foi referência, apesar dos nossos estilos diferentes. Ernani, canhoto com grande habilidade; Renato Reis,
um líder dentro de campo; Mário, marcador, jogava sempre pra ganhar com raça e determinação; Ricardo Pelicano, craque perfeito;
Claudinho, rápido e já lutando contra o peso; Edison Simão, com dribles longos e chute certeiro; O Scarpeli, experiente, líder e
craque de bola Ronaldo, Buglê e Amauri, ex-jogadores profissionais e ídolos. Alisson, para mim o melhor jogador de Futebol do
PIC, e seus irmãos Vinícios e Zezinho, jogadores de ataque,
rápidos e com fome de gol; os irmãos Moreira, o Moreira, goleiro
excelente, o Cacá rápido e artilheiro e Ricardo, um craque, com visão de jogo e passe perfeito; o Jair, na ala direita,
habilidoso, rápido e com chute forte; o Serginho Porquinho, ala esquerda, sempre disciplinado, preciso e habilidoso e Jacaré e
Canário, os dois merecem um livro a parte, pois suas histórias fabulosas e contagiantes povoaram minha imaginação de
adolescente. Não dava pra perder suas aventuras na sauna aos sábados.
Nos final dos anos 70, fizemos o primeiro time para disputar o torneio da “Panela”. O time se chamava “Nova Geração” e era
uma mistura de novos com alguns veteranos: No gol, Carmelo, Plínio Carneiro (nosso amigo jornalista e um dos fundadores da Banda
Mole) e depois o Jean (excelente goleiro). O Beque era o dentista Humberto Mundim, jogador raçudo que se transformava dentro de
campo, brigador que queria bater nos coitados dos árbitros, mas, dava moral para os mais jovens. Fora das quadras foi uma
referência na minha vida por sua luta, persistência e caráter. Na ala direita, eu; na ala esquerda, André (meu primo, amigo e
companheiro inseparável de futebol, garoto rebelde). Na frente, correndo feito louco, o Renatinho Feio (cabeludo, rápido, também
rebelde). Foi o time da minha vida. Fomos para a final e perdemos para os “Metralhas”, o melhor time (Moreira, Nelsinho,
Bosquinho, Alisson, Ricardo, Vinicius, Cacá, Zezinho e mais tarde o Jair) junto com o time da Lagoa (Alemão, Caio e depois Iá
Salum, Mário, Zé Pedercine, Túlio, Ernani, o “garoto” Serginho Porquinho e Edison Simão). Não me lembro se Tiago, o “poste”, era
dos Metralhas ou do Lagoa. Tinha o time do Guedes, do Juninho e do Taquinho, jogavam um futebol clássico com um toque de bola
incrível, o time do Ronaldo Drummond, Buglê e Félix Moutinho (ganhamos deles na semifinal e ficamos doidos). Mais tarde veio o
time excepcional de meninos liderados pelo Alexandre (hoje Xandão), seu irmão Gê, os irmãos Sérgio (espirituoso, coloca apelido
em todo mundo, me chamava de soldadinho) e Bruno, o Juninho e o Boi. Nunca fui campeão do torneio da “Panela”, mas não tem
importância, pois vivi a escola de futebol do PIC.
O tempo correu e não posso deixar de falar das “peladas” de domingo. Quase sempre, eu e o André éramos os primeiros a chegar
e fazíamos nosso time, André, Tônico, Paulinho “sem pescoço” ou Adélio ou Marcinho bigode e eu. Era uma festa! Geralmente
ganhávamos todas esperando o time do Cici e do Jair para disputar a melhor partida do domingo. Algumas vezes perdíamos, como uma
vez para o time do Bianquini, que ficamos o resto do domingo discutindo. A rivalidade com o time do Cici nos fazia correr
dobrado, pois não gostávamos de perder, ainda mais para o Cici. Dele tenho que falar com o maior carinho. Foi o cara que mais me
“bateu” no futebol. Era um marcador implacável e adorava me provocar. Muitas vezes me irritava: como pode um cara sem técnica
conseguir me marcar desse jeito?
Uma vez ele estava me “batendo” direto, ameacei que na próxima eu iria partir pra cima dele. Na primeira bola, o Cici me jogou pro alto. Levantei e tentei uma voadora no peito dele, mas era tão forte que bati e caí no chão. Então, o Cici não fez nada, não reagiu e ficou brincando comigo, rindo dizendo que era meu amigo. E era mesmo. Hoje entendo as “porradas” que levei: era sua forma de jogar, de marcar, ele não misturava as coisas e nunca deixou de ser meu amigo. Nunca mais vou esquecer as “peladas” de domingo e das pessoas que fizeram parte dessa história. São muitas e algumas já se foram como o Coutinho, o Théo, o Cana, o Paulinho, o Plínio, o Ricardo Pelicano...
Não me esqueço da OLIMPIC: o melhor de todos os eventos esportivos internos do PIC. Fui campeão até de peteca e, claro, de futebol de salão com a equipe verde que formou um time imbatível: Alisson, Edison Simão, Tiago Gonçalves e eu. Na final ganhamos do time do Jajá. O Simão filmou tudo.
Jogamos futebol de campo e salão (Jorginho titular absoluto) pelo torneio da FECEMG e foi divertido.
Então, o futebol de salão foi acabando com a construção do campo gramado.
Fiquei de fora por um tempo, machuquei, mas depois voltei a jogar aos domingos. Comecei a jogar aos sábados na “pelada” do Barata e, finalmente, fui para a “pelada” das terças-feiras, composta por jogadores acima de 40 anos, cujo “Presidente” era o disciplinador e organizado Professor Aloysio, onde já jogava alguns dos meus amigos antigos do futebol de salão como o Vinícios Moura, Cáca, Ricardo, Guedes, Zé Maurício, Rogério, Vinicius, Pedrão, Jorginho, o “veterano e incansável” Serginho Porquinho, Jajá, Salvador, Cana, Zé Galo, Peninha, Jorginho e outros. Tive que mudar um pouco meu jeito de jogar e fui me adaptando ao tamanho do campo. Fiz novas e grandes amizades e, de novo, encontrei o prazer de jogar e depois participar da resenha e churrasco, ora do Marquinhos, ora do Jajá. O Cana continuava na ativa, jogava como um menino, lógico, era o melhor da “pelada” como jogador e contador de histórias da vida.
O tempo passou... O menino se tornou adulto, se apaixonou, casou, teve uma filha maravilhosa, se tornou um veterano do futebol. Machucou, parou, operou o joelho, voltou, machucou de novo e novamente voltou a jogar. Correu tanto que hoje os joelhos estão exaustos.
Experiências felizes nos fazem pessoas éticas e realizadas. São 47 anos de convivência e uns trinta e muitos anos de futebol no PIC e continuo correndo, pois esta é a minha vida.
Um grande abraço a todos!
Serginho Alkmim